segunda-feira, 25 de março de 2013


A arte urbana em Petrópolis: O grafite

O futuro dos murais modernistas são os grafites


“Para Maria Cecília França Lourenço (1995), o principal alvo do projeto moderno desenvolvido no campo da arte no Brasil durante os anos 1930 e 1940 é “tornar-se cultura urbana, chegando ao transeunte através de uma convivência cotidiana [...]” (Lourenço, 1995, p. 17). O que nos anos 1920 era um movimento que proporcionava uma relação direta entre artista e espectador passava agora a ser uma entre o objeto, a própria arte e o “fruidor kantiano” (idem), que não observa passivamente, mas internaliza a arte.”


Chegar ao ao transeunte através da conviência cotidiana. Um dos mais celebrados artistas da contemporaneidade é o inglês Banksy. Seus grafites carregam ainda um pedaço do pop arte. Seus temas são mais críticos que celebrativos, pois seus personagens são os cidadãos comuns, são eles quem são criticados, celebrados.

Se o  Pop art é o marco de passagem da modernidade para a pós-modernidade na cultura ocidental, os grafites são o futuro dos painéis modernistas. O Pop Art tem uma atitude artística adversa a arte moderna, mas utiliza das possibilidades encontradas pelo projeto de arte moderna, se apropriando dos espaços públicos. Inova nos meteriais, como a tinta acrílica, o poliéster e o látex. A cores são intensas, brilhantes e vibrantes. Penso que no grafite ele encontrou seu ponto culminante. Continua a criticar mas sua critica aqui não é somente à sociedade capitalista, mas à atitude do cidadão comum frente às condições sociais do pós-capitalismo.


O grafite aqui é manifestado por meninos e meninas que não são celebrados, mas a sensibilidade impressiona, a cor emociona, e cumpre o seu objetivo, o fruidor não observa passivamente, ele internaliza a arte, eu internalizo.

Em muros e ruinas de fábricas.


Volto a repetir as palavras da primeira postagem que falo dos grafites, continuo pensando nos muros e na arte.

Estes muros que separam, que tapam nossas vistas para o que há do outro lado da paisagem, da vista. Pintados de branco ou de cinza, precisamos colori-los para torná-los mais alegres e menos invasivos, e restritivos, e tristes.

Na arquitetura modernista, um dos objetivos foi, elevar as contruções sobre pilotis, abrir espaço ao transeunte para o olhar a paisagem, acabar com os muros.

Desta vez também atento para as previsões dos futuristas, que erraram, pois o futuro é colorido!

O primeiro grafite fotografei quando estava fazendo uma de minhas caminhadas. Continuo a fotografar e a admirar, e a fruir, e a internalizar cada vez mais o trabalho destes artistas.


Não sei se neste momento já se processava a idéia de fazer um registro de todos estes grafites que fotografei, mas sei que as cores misturadas ao verde da mata e os muros,  já me atraíam visualmente. O grafite aqui é uma mistura de arte e natureza.

 Sei agora que estes muros, depois de algum tempo  não são somente muros ou espaços para traduzir uma linguagem visual, um espaço pós-moderno, mas também um objeto ou lugar artístico por si só. Percebi isto quando olhei para eles e senti a nostalgia do passado, com seus tijolos expostos pela ação do tempo, as ruínas de fábricas, Passado e presente se misturam.

Pude perceber melhor quando vi as fotografias em maior resolução, que o recorte depois aproximado me fez ver a beleza destes muros com sua aparência natural e suas marcas do tempo. A mata no fundo, às vezes uma arquitetura ou mesmo as flores, as cores e imagens se integravam àquele mundo colorido.


Nostalgia não só do tempo, mas da qualidade efêmera e passageira de tudo que existe. Assim como os muros gastos pela ação do tempo, estão alguns grafites, se desvanecendo e ficando ainda mais artísticos em suas cores desbotadas.

Me veio então em mente, a característica passageira dos grafites, que ficam expostos como em um "museu"  a céu aberto. Tudo se confirmou quando, um dia após fotografar, alguns deles estavam sendo substituídos por outros pelos artistas, não sei se com, ou sem registro pessoal. 

Fiquei pensando nas opiniões, nos debates, nos preconceitos que existem acerca dos grafites.

Fique pensando se eu mesmo não tinha um pouco deste preconceito, e devia pensar melhor sobre esta manifestação urbana contemporânea.

Por que, em se tratando de arte e outras manifestações sociais e culturais, como não podia deixar de ser, existe uma hierarquia, mas que vem se desfazendo junto com todos os outros movimentos sociais, e a arte vêm ganhando as ruas, ficando mais acessível às massas.

Podemos ver estes muros de muitas maneiras. Para os que estão cercados por ele, ele representa segurança. Para os que do lado de fora, sentem vontade de penetrar naquele espaço, onde talvez se esconda um pedaço de natureza, ele represente um espaço roubado, restrito, privado.


O muro  que separa. O lado de dentro e o lado de fora.

Sempre associado à marginalização, ao piche e à contravenção “atualmente o grafite já é considerado como forma de expressão incluída no âmbito das artes visuais” [...] mais especificamente, da street art ou  - arte urbana - em que o artista aproveita os espaços públicos, criando uma linguagem intencional para interferir na cidade. 

Considerando a preocupação da arte mais recente, pensei em todas as questões que envolvem a validade, ou autenticidade, e no que representa a arte. Tendo já aprendido a lição com Gombrich que disse que "Arte com A maiúsculo não existe", e que  segundo ele mesmo, “não prejudica ninguêm dar o nome de arte a todas essas atividades, desde que se conserve em mente, que tal palavra pode significar coisas muito diversas , em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiúsculo não existe”.
Referências :


WOLFFIM, Heinrich. Conceitos Fundamentais da História da Arte : O problema da evolução dos estilos na arte mais recente . 4° ED. São Paulo: Fontes, 2000.
  
GOMBRICH, E.H. A Historia da Arte . Rio de Janeiro: LTC, 1999. (INTRODUÇÃO).




 
"VENTANIA", DE ATHOS BULCÃO: PAINEL ARQUITETÔNICO E MURAL MODERNISTA Bárbara Duarte, Mestre em Arte pela Universidade de Brasília.