domingo, 4 de dezembro de 2011

Experiências urbanas pós-modernas

Registro de eventos perdidos no tempo e no espaço: em algum dia do século XXI.


Imagem e realidade 

"Os meios audiovisuais, utilizando-se da sua capacidade de atingir mais sentidos humanos (visão e audição, responsáveis por mais de ¾ das informações que chegam ao cérebro), têm um potencial mais rico e imediato para transmitir sua mensagem e sua visão de realidade. A literatura, a música e a poesia dependem de um grau mais alto de abstração e interaçãológica com o intelecto. Não obstante, outras artes “mais antigas” já tiveram seus momentos de mescla entre ficção e realidade, como as pinturas rupestres das cavernas (que “eram” os próprios animais pintados, e não representações deles) ou a escultura das primeiras civilizações (que buscavam a própria forma do real). Hoje, entretanto, estão na esfera da arte, ou ficção. Pode ser que, num futuro incerto, o homem ria do vídeo, perguntando-se como pôde um dia acreditar numa imagem formada por circuitos eletrônicos. Mas, até lá, continuará em dúvida sobre sua validação ou não como parte da realidade."




                                       ESCULTURA MAPEADA _ 





ModoLuz no Festival Sesc

ESCULTURA MAPEADA _ 

ModoLuz é uma escultura gigante com projeções sincronizadas e som. A forma foi especialmente criada para  salão da cúpula do Quintandinha, em Petrópolis, na edição 2011 do Festival SESC Rio. Posicionada exatamente no centro do espaço de 40 m de diâmetro e 20 m de altura, a grande escultura de 10 m de altura e 6,50 m de base, é assimétrica e cúbica, em contraste com as linhas curvas do ambiente.
A performance projeta grafismos, cores, animações, paisagens e texturas, fragmentadas sobre a forma original. O áudio, sincronizado com as imagens, explora a repetição natural criada pela acústica do lugar. O salão Mauá, onde está a ModoLuz, é a segunda maior cúpula do mundo.





Museu Imperial: Banda Marcial Wolney Aguiar

Uma construção em estilo neoclássico, uma banda em estilo escocês, a mata atlântica ao fundo.








quarta-feira, 27 de julho de 2011

- Paisagens -

“Nós podemos "explicar" o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos que conhecemos de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol” (Carl Sagan).

Vista do espaço a terra é um planeta azul, com manchas brancas formando espirais, pairando no “céu”. Como disse Carl Sagan “deste ponto distante de observação, a terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial”. "Mas olhem de novo para o ponto" olhem mais de perto.
  
Muitas palavras podem descrever o lugar em que vivemos. Cada uma descreve o quer que se que imagine.  Em larga escala Cosmo, galáxias, Via Láctea. Em escalas menores planetas, sistema solar, planeta terra.
E se pedissem para imaginarmos dentro delas o ecossistema certamente não imaginaríamos paisagem e sim, coisas mais parecidas com a fauna e a flora.
Estas palavras não dariam conta de descrever ou explicar visualmente coisas sublimes como um entardecer, um por de sol, ou a palidez de uma tarde de outono. Só uma delas pode dar conta de disso: Paisagem.

Paisagem: espaço territorial que se abrange num lance de vista.Vastidão, grandeza.


Petropolis é o tipo de cidade que oferece  dois tipos de paisagem: As sublimes e as pitorescas. Sublime por suas elevações que ultrapassam os 2.000 metros de altura, que sublimam o cotidiano, que nos desafiam e abrem nossos olhos para a grandeza do mundo. Pitorescas por seus belos jardins. O "grande" e o "Pequeno".


Sublime: Palavra originada no ano 200 depois de cristo.

Alain de Botton, no capítulo dedicado a falar da paisagem sublime em seu livro "A ARTE DE VIAJAR" , busca na história bíblica o momento em que Deus esteve no deserto do Sinai, vale desprovido de vida, sem árvores, sem pássaros, sem flores, especialmente na região central, cuidando de um grupo de israelitas que se queixavam de falta de alimento.

Este episódio abre-se à percepção  do vazio e a falta de vida que há no deserto.  A paisagem sublime transmite através de sensações como vazio e silêncio, o sentimento do sublime, e foi justamente no momento do declínio da fé, no início do século XVIII, que as paisagens sublimes passam a se tornar importantes aos humanos que procuravam ressuscitar a fé que neles estava se perdendo, momento de transições culturais e sociais que colocavam à prova a identidade do ser humano. O ser em um mundo novo, quando no surgimento das cidades modernas, as relações humanas e do homem com o meio natural e tecnológico  alteravam sua percepção de tempo e espaço, onde a vida se encontra.

Falando do sublime, De Botton diz que

“as montanhas e vales sugerem espontaneamente que o planeta foi construído por algo diferente de nossas mãos, por uma força maior do que poderíamos reunir, muito antes que nascêssemos, e projetado para continuar muito depois de nossa extinção” (De Botton, 2003, Pag. 182) . 

Diferentemente das paisagens sublimes, Para De Boton, as paisagens pitorescas, os jardins, as árvores, refletem em nós, “Os efeitos benéficos da natureza, um ser inanimado pode ainda exercer influencia sobre os que o cercam. Cenas naturais têm poder de sugerir certos valores – carvalhos, dignidade; pinheiros, a determinação; lagos, a calma – e, com sutileza, podem assim servir de inspiração para a VIRTUDE.

Virtude latim: virtus; em grego: ρετή é uma qualidade moral particular. Virtude é uma disposição estável em ordem a praticar o bem; revela mais do que uma simples característica ou uma aptidão para uma determinada ação boa: trata-se de uma verdadeira inclinação.
Virtudes são todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente.
A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Segundo Aristóteles, é uma disposição adquirida de fazer o bem,e elas se aperfeiçoam com o hábito.

Para o romântico Wiliam Wordsworth, cidadão inglês, homem que experimentou estas mudanças, preferindo viver na Inglaterra que ainda não havia sido modificada culturalmente pelo movimento de industrialização e crescimento das cidades, após vivenciar as paisagens naturais na Inglaterra, percebeu:

"A natureza, tem tal poder de influenciar a mente que se encontra em nós, de imprimir com quietude e beleza, e nutrir com pensamentos elevados, que nem as más línguas, os julgamentos apressados, nem o escárnio de homens egoístas, nem os cumprimentos desprovidos de gentileza, nem todo o entediante relacionar-se da vida diária, jamais nos dominarão nem perturbarão. Nossa fé risonha de que tudo o que contemplamos está cheio de benção". Wiliam Wordsworth.

Para De Botton nas cidades  nascem os sentimentos mais egoístas dos seres humanos, competição, inveja, a realidade que compõe todo tecido urbano uma vez que é permeada por valores materiais, seria a causa dos males que a urbanidade provoca. Ao contrário, o campo e sua quietude, a vida natural manifestada, nada mais poderia oferecer que bondade e beleza. Para Wordsworth "Embora ausentes há tanto tempo, essas formas de beleza não foram para mim, como a paisagem para o olho de um cego: mas muitas vezes em quartos solitários, e no meio do alvoroço, de vilas e cidades, devi a elas, em horas de cansaço, doces sensações...em tranquila recuperação. Quantas vezes, na escuridão e em meio às muitas formas, da luz melancólica do dia, quando o desassossego da agitação vã e a febre do mundo, se encontraram nas batidas do meu coração, quantas vezes em espírito voltei-me para ti, ó silvestre, quantas vezes meu espírito se voltou para ti."  Wiliam Wordsworth.

Apesar do desenvolvimento urbano, as paisagens petropolitanas conservam em "estado bruto"  matas, vales, montanhas. A colonização européia e a ocupação do território no século XIX, trouxe para a cidade marcas da arquitetura e do próprio paisagismo europeu. A maneira de construir palácios e jardins, transformou este lugar que já era "belo antes"  por meio do espírito dos revivalismos arquitetônicos em uma paisagem bela e sublime. Belas pelos jardins e palácios,  sublimes pelos vales e montanhas que por sí próprios, enveredaram os caminhos do crescimento urbano e e da transformação de sua paisagem. As imagens focam a Petrópolis natural, com resquícios da transformação cultural e da paisagem que vemos hoje.






“O enquadramento exige o recuo, a distância certa. Tudo ver, claro, mas apenas aquilo que está no campo. E ainda, o enquadramento inspira ordem, da à regra dos primeiros planos e dos planos de fundo [...] porque a moldura corta e recorta, vence sozinho o infinito do mundo natural. O limite que ela impõe é indispensável á construção de uma paisagem como tal. (Calquelin, 2007, pag. 137)

Referências:


SAGAN, CARL. PÁLIDO PONTO AZUL: UMA VISÃO DO FUTURO DA HUMANIDADE NO NOSSO ESPAÇO. 



DE BOTTON, Alain. Do Sublime. In: De Botton, Alain. A Arte de Viajar. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

DE BOTTON, Alain. Do Campo e da Cidade. In: De Botton, Alain. A Arte de Viajar. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

Virtude in: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Virtude> Acesso em 5 de março de 2013

CAUQUELIN, Anne. A invenção da Paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.